segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A lei de Zeca Pagodinho

Recebi hoje por e-mail e concordo totalmente!

A lei de Zeca Pagodinho

Nailor Marques Junior

Diz uma história que numa cidade apareceu um circo, e que entre seus artistas havia um palhaço com o poder de divertir, sem medida, todas as pessoas da platéia e o riso era tão bom, tão profundo e natural que se tornou terapêutico. Todos os que padeciam de tristezas agudas ou crônicas eram indicados pelo médico do lugar para que assistissem ao tal artista que possuía o dom de eliminar angústias.

Um dia porém um morador desconhecido, tomado de profunda depressão, procurou o doutor. O médico então, sem relutar, indicou o circo como o lugar de cura de todos os males daquela natureza, de abrandamento de todas as dores da alma, de iluminação de todos os cantos escuros do nosso jeito perdido de ser. O homem nada disse, levantou-se, caminhou em direção à porta e quando já estava saindo, virou-se, olhou o médico nos olhos e sentenciou: "Não posso procurar o circo... aí está o meu problema: eu sou o palhaço".

Como professor vejo que, às vezes, sou esse palhaço, alguém que trabalhou para construir os outros e não vê resultado muito claro daquilo que faz.

Tenho a impressão que ensino no vazio (e sei que não estou só nesse sentimento) porque depois de formados meus ex-alunos parecem que se acostumam rapidamente com aquele mundo de iniqüidades que combatíamos juntos. Parece que quando meus meninos(as) caem no mercado de trabalho, a única coisa que importa é quanto cada um vai lucrar, não importando quem vai pagar essa conta nem se alguém vai ser lesado nesse processo.

Aprenderam rindo, mas não querem passar o riso à frente nem se comovem com o choro alheio. Digo isso até em tom de desabafo, porque vejo que cada dia mais meus alunos se gabam de desonestidades. Os que passam os outros para trás são heróis e os que protestam são otários, idiotas ou excluídos, é uma total inversão dos valores. Vejo que alguns professores partilham das mesmas idéias e as defendem em sala de aula e na sala de professores e se vangloriam disso.

Essa idéia vem me assustando cada vez mais, desde que repreendi, numa conversa com alunos, o comportamento do cantor Zeca Pagodinho, no episódio da guerra das cervejas, e quase todos disseram que o cantor estava certo, tontos foram os que confiaram nele. "O importante, professor, é que o cara embolsou milhões", disse-me um; outro: "Daqui a pouco ninguém lembra mais, no Brasil é assim, e ele vai continuar sendo o Zeca, só que um pouco mais rico". Todos se entreolharam e riram, só eu, bobo que sou, fiquei sem graça.

O pior é quando a gente se dá conta que no Brasil é assim mesmo, o que vale é a lei de Gérson: "O importante é levar vantagem em tudo, certo?" (Lei de Gerson..! dá para rir..?). A pergunta é: É possível, pela lógica, que todo mundo ganhe ? Para alguém ganhar é óbvio que alguém tem de perder. A lógica é guardar o troco a mais recebido no caixa do supermercado; é enrolar a aula fingindo que a matéria está sendo dada; é fingir que a apostila está aberta na matéria dada, mas usá-la como apoio enquanto se joga forca, batalha naval ou jogo da velha; é cortar a fila do cinema ou da entrada do show; é dizer que leu o livro, quando ficou só no resumo ou na conversa com quem leu; é marcar só o gabarito na prova em branco, copiado do vizinho, alegando que fez as contas de cabeça; é comprar na feira uma dúzia de 15 laranjas; é bater num carro parado e sair rápido antes que alguém perceba; é brigar para baixar o preço mínimo das refeições nos restaurantes universitários, para sobrar mais dinheiro para a cerveja da tarde; é arrancar as páginas ou escrever nos livros das bibliotecas públicas; é arrancar placas de trânsito e colocá-las de enfeite no quarto; é trocar o voto por empregos, pares de sapato ou cestas básicas; é fraudar propaganda política mostrando realizações que nunca foram feitas: a lógica da perpetuação da burrice.

Quando um país perde, todo mundo perde. E não adianta pensar que logo bateremos no fundo do poço, porque o poço não tem fundo.

Parafraseando Schopenhauer: "Não há nada tão desgraçado na vida da gente que ainda não possa ficar pior". Se os desonestos brasileiros voassem, nós nunca veríamos o sol. Felizmente há os descontentes, os lutadores, os sonhadores, os que querem manter o sol aceso, brilhando e no alto.

A luz é e sempre foi a metáfora da inteligência. No entanto, de nada adianta o conhecimento sem o caráter. Que nas escolas seja tão importante ensinar Literatura, Matemática ou História quanto decência, senso de coletividade, coleguismo e respeito por si e pelos outros.

Acho que o mundo (e, sobretudo, o Brasil) precisa mais de gente honesta do que de literatos, historiadores ou matemáticos. Ou o Brasil encontra e defende esses valores e abomina Zecas, Gérsons, Dirceus, Dudas, Rorizes todos os que chamam desonestidades flagrantes, de espertezas técnicas, ou o Brasil passa de país do futuro para país do só furo.

De um Presidente da República espera-se mais do que choro e condecoração a garis honestos, espera-se honestidade em forma de trabalho e transparência.

De professores, espera-se mais que discurso de bons modos, espera-se que mereçam o salário que ganham (pouco ou muito) agindo como quem é honesto.

A honestidade não precisa de propaganda, nem de homenagens, precisa de exemplos. Quem plantar joio, jamais colherá trigo.

Quando reflexões assim são feitas cada um de nós se sente o palhaço perdido no palco das ilusões. A gente se sente vendendo o que não pode viver, não porque não mereça, mas porque não há ambiente para isso. Quando seria de se esperar uma vaia coletiva pelo tombo, pelo golpe dado na decência, na coerência, na credibilidade, no senso de respeito, vemos a população em coro delirante gritando "bis" e, como todos sabemos, um bis não se despreza. Então, uma pirueta, duas piruetas, bravo! bravo!

E vamos todos rindo e afinando o coro do "se eu livrar a minha cara o resto que se dane".

Enquanto isso o Brasil de irmã Dulce, de Manuel Bandeira, do Betinho, de Clarice Lispector, de Chiquinha Gonzaga e de muitos outros heróis anônimos que diminuíram a dor desse país com a sua obra, levanta-se, caminha em silêncio até a porta, vira-se e diz:

- Esse é o problema... eu sou o palhaço.




32 comentários:

  1. Ontem à tarde, assistí à uma palestra de um fotógrafo profissional que disse ter abandonado as fotos publicitárias devido a enorme manipulação com que as fotos eram produzidas, depois de se converter ao zen budismo.
    Atualmente, continua fotógrafo, trabalha com fotojornalismo e dá aulas de fotografia.
    Quanto ao Zeca, se nossos irmãos brasileiros fôssem um pouco mais educados e conscientes, sua atuação em publicidade de bebida alcoólica tornaria-se "contra-propaganda". Pois está doente a olhos vistos.

    Honestidade por aqui é defeito, burrice, bobeira, não obrigação.
    Prefiro continuar bobo. Palhaço também.
    ótimo texto, Angela.

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  2. Obrigada, meu amigo! Recebi por e-mail hoje e resolvi divulgar. É exatamente como me sinto, mas não sei colocar estes sentimentos no papel...
    Estamos vivendo na era do fake e de um total desprezo pelos valores básicos de respeito, ética e honestidade...
    Será que isto é moderno e eu é que estou ficando velha?
    Beijo carinhoso.

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  3. A coisa sempre foi meio assim, mas antes era meio por debaixo dos panos.
    Hoje as pessoas se orgulham de dizer que passaram alguém pra trás e levaram vantagem.
    Tem falar que nem a Regina Duarte...
    "Estou com muito medo!"

    Pois é...

    Beijos!

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  4. Estou com medo também, minha querida...as pessoas precisavam levar um "choque de valores", Não sei de que forma, mas precisavam sim...
    Beijão!

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  5. Amiga ângela
    Eu também concordo com o autor e gostaria de ter escrito o artigo.
    Não vejo possibilidade de mudar a maneira de pensar das pessoas atualmente nem a médio prazo. As atitudes equivocadas são vistas nas pequenas coisas. Até os fins estão justificando os meios.
    O fato a seguir foi vivenciado por mim há alguns meses:
    Como sempre faço aos sábados, fui almoçar no Superatacado MAKRO da Barra e ao estacionar o carro junto ao restaurante próximo ao local onde as empresas abastecem seus caminhões, notei no piso sob o carro uma embalagem que depois constatei ser um saco com 10k de farinha de trigo. Abaixei-me, apanhei o saco e ia colocá-lo num carrinho para entregar na expedição para que fosse entregue ao seu dono caso viesse a procurá-lo quando por ele desse falta. Isso era a coisa lógica a fazer.
    Para minha surpresa apareceu um senhor da idade, mais novo do que eu que tomou-o de minhas mãos e disse que levaria para um orfanato que ele conhecia.
    Mesmo ponderando que o saco poderia teria caído de um monte sacos iguais e que o transportador teria que prestar contas daquela unidade perdida quando houvesse a conferência pelo comprador, o cidadão persistiu no propósito de fazer uma doação com uma mercadoria que não lhe pertencia, talvez pensando num dito popular errôneo de que "o achado não é roubado".
    Por aí você vê que está ficando enraizado o conceito de que é permitido o furto para matar a fome ou para fazer caridade. Que se pode tirar dos ricos para dar aos pobres. Que não há mal nenhum em invadir propriedade para obter um pedaço de chão, e assim por diante. O crime passou a ter graus: pequenos, médios e grandes.
    Faz lembrar uma piada do Juca Chaves contada num dos seus shows:
    Num viagem de avião um homem vê uma linda mulher e, numa abordagem direta pergunta:
    -- Por cem mil dólares a srta. faria amor comigo?
    A jovem vacilou um pouco e respondeu:
    -- Por cem mil dólares até que sim.:
    O rapaz então pergunta::
    -- e por cem dólares?
    Responde ela, indignada:
    -- O senhor está pensando que eu sou uma prostituta?
    Com um sorriso malicioso ele então falou:
    -- Que você é uma prostituta já ficou definido na primeira resposta. Agora é só uma questão de preço.

    Beijos..

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  6. É, meu amigo, não sei onde todos vamos parar...E ainda tem gente preocupada com os jornalistas que botam a boca no trombone chamando-os de "denuncistas"...Pior do que isso é achar que este estado de coisas está correto, que tudo é assim mesmo...Juro a você que não sei o que pensar...e também não vejo solução.
    Beijo grande!

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  7. Me preocupo muito em dar bons exemplos e valores aos meus filhos.
    Acho que se cada um tentar fazer a sua parte dentro da própria casa, já ajuda e muito. Mas hoje em dia, tem criança demais sendo criada por babás e empregadas e nem olham pra cara dos pais, e não que isso seja errado. Para sobreviver, tem gente que tem até dois empregos... mas a criançada anda muito solta.

    Outra coisa são as escolas.
    No meu tempo, diretor, coordenador, entrava em sala, a gente se levantava.
    Formavamos todos os dias no pátio e cantávamos o Hino Nacional (que aliás eu canto inteiro e sem erros até hoje por causa disso),
    Nem pensar em responder a um professor com malcriações, protestos inflamados... tínhamos muito respeito por eles.
    Hoje a coisa tá tão democrática, que tem professor saindo de sala de aula chorando por causa de alunos mal educados e tiranos.

    A coisa anda preta em vários sentidos...
    ...e começa na infância.

    Beijos!

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  8. Foi exatamente isso o que o professor do texto falou...E olha que ele falou de jovens que concordavam com ele quanto aos valores éticos, mas que mudaram depois...Imagina então com estes que já aprendem o "jeitinho", o "jogo de cintura", a "trapaça", o "suborno" em casa...É justamente a estes que estamos dando a nossa representação lá em Brasília, porque os éticos são considerados pouco preparados para estas funções de comando, liderança e de negociação política! Tá tudo de pernas pro ar, amiga...
    Bjs

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  9. No meu também! Ninguém era "tio" e nem "tia". Era Dona Lucia, Senhor Eduardo, etc. Por favor, dá licença e obrigado eram palavras que se aprendia desde o berço e Moral e Cívica era matéria obrigatória na escola. Hoje, o sujeito estaciona na frente da garagem do prédio, puxa o freio de mão, leva as chaves e ainda fica danado da vida porque o síndico mandou arriar os quatro pneus do carro dele...É um total desrespeito ao próximo e uma inversão de valores inacreditável!

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  10. Hoje em dia é muito "eu", "eu", "eu"...
    A coletividade está cada vez mais fora de moda.
    As pessoas não pensam duas vezes em se dar bem (seja em que quisito for), mesmo que para isso tenham que pisar ou magoar alguém.
    A palavra desculpa virou espirro.
    Faz merda, pede desculpa e tá tudo bem.
    Eu costumo dizer que quem usa a palavra "desculpa" demais, não tem é vergonha na cara... Mais fácil pedir desculpas do que não errar, não é mesmo?

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  11. É a mesma coisa, William, do sujeito que dá a "cervejinha" pro guarda não apreender o carro e reclama que os políticos são venais! Não faço distinção entre as duas pessoas não, pra mim são desonestos da mesma forma. Reclamar que a cidade está suja e jogar papel ou ponta de cigarro no chão, também! EU tenho que ser a primeira a cumprir as regras para depois exigir dos meus representantes....

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  12. Quem pensa no coletivo, Filhuska, não joga lixo no chão, não estaciona em lugar proibido, não fura fila, não dá volta em conta de restaurante, não usa drogas (porque são elas que sustentam o tráfico)...Se todos seguissem as regras, o governo existiria apenas para lidar com as grandes questões porque o resto funcionaria sozinho...

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  13. Nós deveríamos ensinar e praticar a tolerancia zero para o bem da coletividade. Por que nenhuma madame de Copacabana sai mais com o seu cachorrinho sem levar saquinho plástico e papel? Porque se o seu "bebê" fizer sujeira na rua e ela não limpar, vai ser apontada e exigida pelas outras pessoas. Então, mesmo que não goste, faz para não se aborrecer. Devia ser assim com tudo! Respeito ao próximo em primeiro lugar!

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  14. Como eu sempre disse e repito agora, é graças a mulheres engajadas, participativas e inteligentes como você que o sol continua brilhando lá no alto!
    Obrigada por dividir conosco este texto maravilhoso.
    Se me permitir, vou linkar!
    Beijo carinhoso, amiga querida!
    Deste banho, agora!

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  15. Pode linkar à vontade, minha querida, mas o texto não é meu não, apenas encaminhei a vocês...Recebi por e-mail! De qualquer forma é muito bom mesmo! Identifiquei-me completamente com ele...
    Beijo e obrigada!

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  16. Sim, eu sei, é do Nailor Marques Junior, mas as atitudes são suas...rs
    Beijão e obrigada pela permissão, migona!

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  17. Este quadro aqui também é dele, olha só...

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  18. Tô cega... não tô vendo o quadro... onde, onde?

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  19. Ué, você postou em quote de novo pra mim...

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  20. Espera um pouquinho que elecarrega. Conseguiu ver?

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  21. Vou usar o I.Explorer pra ver se consigo ver... pera

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  22. Hahahahahaha gente, só agora a imagem apareceu pra mim! que coisa incrível!
    Antes aparecia um quadradinho com um X no canto esquerdo.
    Agora eu vejo bem!
    Fantástico!
    Obrigada, amiga!

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  23. Vocês já falaram tudo...
    Muito bom esse texto.
    Bjos, Angela.

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  24. Obrigada, minha querida! Identificação total, né?
    Beijão!

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  25. Excelente! já espalhei por email... hehehehe
    Beijos, amiga e obrigada!

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  26. Depois destas palavras de ouro, retribuo com o meu aplauso de prata.
    Belíssimo texto Angela.
    Bjos

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  27. Tem tanta coisa errada nesse país, q textos como esse, deveriam ser leitura obrigatória pra todas as pessoas !!
    Beijos, Ân !!!

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