J. Carino
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A vida corre; a luta pela sobrevivência é intensa; a praticidade se impõe. Tudo isso faz com que os pequenos gestos de atenção, de gentileza, fiquem esquecidos. Entre eles, as manifestações de agradecimento.
Sim, agradecer é uma arte. Quando se agradece, não basta a simples repetição mecânica de palavras; é necessário que elas contenham o brilho da sinceridade e o calor da verdade de quem agradece.
Essa arte é feita, inclusive, de sutilezas e de delicadeza. O agradecimento não pode soar como uma obrigação; não pode também conter a arrogância dos que agradecem a contragosto. Agradecer é como pintar ou esculpir: a alma de quem faz deve misturar-se ao gesto de fazer. O resultado precisa conter a beleza integral dessa manifestação de atenção.
Já reparou, caro leitor, como um simples “obrigado” é algo poderoso? Muitas vezes, em meio à tensão de um contato malsucedido, ou mesmo quando se percebe que o desentendimento vai descambar para uma discussão, essa palavra mágica desarma espíritos e dissolve resistências.
Manifestar agradecimento também honra e enobrece aqueles a quem agradecemos. É o caso típico dos que nos prestam serviços – como balconistas, garçons, porteiros, motoristas de ônibus ou de táxi -, a quem muitos não agradecem, seja por distração, seja por acharem que não fazem mais do que sua obrigação ao nos atenderem bem. E sem dúvida um “muito obrigado”, dito com calor e sinceridade, pode salvar o dia de alguém que já pode estar se considerando humilhado, mal remunerado ou injustiçado em seu trabalho.
Interessante é lembrar que, embora a gente nem sempre exercite a arte de agradecer, desejamos receber agradecimentos. Muitas vezes nos enfurecemos quando não recebemos pelo menos uma palavra de agradecimento. Nossa idéia mais típica é julgar que aí existe uma ingratidão em relação ao que fizemos.
Preocupa-me sobremaneira observar que a arte do agradecimento não está sendo passada como antes às novas gerações. Crianças – pessoas em formação – não nascem sabendo agradecer; precisam ser ensinadas; necessitam aprender essa arte, como as demais regras de civilidade e gentileza sem as quais jamais se tornarão integralmente humanas. Adultos têm o inelutável dever de passar a esses seres novos que entram no mundo o que esse mundo contém, de mau ou de bom, inclusive as manifestações básicas de conduta harmoniosa na convivência com os outros, entre elas a arte de agradecer.
Assusta-me igualmente ver entre os jovens essa ausência contumaz de agradecimentos. Quero crer que lhes parece “caretice” dizer um “obrigado”. Ou talvez seja simples falta de tempo, ou ainda um dos frutos da confusão comunicativa a que me referi no início desta crônica.
Agradecer é doar-se em sinceridade a outrem; é reconhecer-lhe a importância; é testar a própria humildade; é manifestar a boa educação – condição que também parece estar se dissolvendo em meio à brutalidade e à ignorância cada vez mais generalizadas.
Receber alguma coisa – uma mensagem, um presente, um bom serviço, ou um simples gesto de atenção – é muito bom. Porém, melhor ainda é usufruir dos resultados da arte de agradecer. Quando superamos nossas resistências, às vezes até motivadas pela timidez, vemos o quanto é gostoso agradecer, geralmente vendo refletida nos olhos daqueles a quem agradecemos a importância de nosso gesto de agradecimento.
Que bom será se pudermos continuar cultivando a arte de agradecer.
E eu, prezado leitor, agradeço, do fundo do coração, seu carinho e generosidade de ler o que escrevo. Obrigado mesmo!
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
www.cronicascariocas.com
Obrigada e por favor estão em processo de extinção...Extinção de educação e da noção do outro como ser humano tanto quanto a pessoa que aboliu as palavras do seu vocabulário.
ResponderExcluirEu agradeço, às vezes até demais. Isso não me diminui em nada, pelo contrárioo, me diferencia da malta mau-educada. Sim, considero falta de educação na maioria das vezes não soltar um mero obrigadinho...Mas tem gente que deve achar isso um rebaixamento, sei lá...
Belo texto e bela lembrança amiga...Obrigada!
Beijos
Este autor é um velho e querido amigo. É cronista lá do "Alma Carioca" e um excelente poeta e fotógrafo. Este texto me encantou!
ResponderExcluirConcordo com tudo que disse. A gentileza está desaparecendo aos poucos. Ás vezes ainda escutamos um "valeu", mas mesmo assim é raro...
Muito triste isso!
Beijão, minha querida!
O que essas pessoas não percebem é que acabam afastando os outros. De forma consciente ou não elas acabam incomodando pela falta de humildade. Que aliás considero um dos principais motivos, além da ausência de educação, para que isso aconteça. Mas faço uma ressalva, isso é muito coisa de carioca, que anda muito grosseirão, sorry...Em BH escuto e quando viajo também. Nós cariocas estamos com fama de grossos lá fora sim, depois não sabemos porque...
ResponderExcluirEsse ano me afastei de um amigo por conta disso, adora(va) pedir as coisas e nunca agradecia por nada. Mandei pro inferno em pensamento e não quero mais sua companhia. O que aliás é um problema recorrente, tem gente que confunde gentileza e educação com babaquice e quer montar.
Beijos
Tá "assim" de gente por aí que faz a mesma coisa, amiga....Seria uma glória que todos lessem este texto e começassem a mudar o seu comportamento...
ResponderExcluirBjs
Eu me lembrei agora da secretária do Mário Henrique Simonsen que me disse uma vez que em 30 anos, ele jamais pediu nada sem um "por favor" e nunca deixou de dizer "obrigado" ao receber....
ResponderExcluirHá alguns dias coloquei um vídeo por aqui de uma monja de Portugal que nos incute o mesmo, principalmente o de agradecer diariamente ao que já temos, agradecer a nós mesmos, por estarmos vivos, saudáveis, pois ela fala que sofremos devido a desejarmos o que não temos ou por não querermos o que já temos.
ResponderExcluirQuanto aos jovens no texto citado "o VALEU" funciona como muito obrigado para eles.
Se olhamos diretamente para alguém e dissermos 'por favor', com certeza a pessoa nos receberá melhor. Todos somos iguais, emocionalmente. Evoluímos muito em tecnologia, etc. Mas quanto aos sentimentos, continuamos como nossos ancestrais. Mesmo que o lugar esteja pesado, que percebamos raiva, podemos modificar isso, às vezes, até em silêncio.
Aprendí a reverenciar as pessoas, parece ridículo para nós, mas ao nos reclinarmos para alguém, tanto quando chegamos, como quando nos despedimos, mesmo que nos achem ridículos, se sentirão melhor.
As mãos em prece significam, além da união corpo-mente, que estamos desarmados, que nenhum mal poderemos fazer.
Bom esse texto, Angela.
P. S.: Minha mãe está ótima; o médico em seu retorno comentou: Com essa recuperação, com essa saúde, a senhora viverá se não levar nenhum tombo até os cem anos. E eu, brincando, meio perplexo respondí-lhe: Então você já está convidado ao meu enterro. risos.
Isso aí Sílvia, qd na verdade, os verdadeiros babacas são eles.....!!!!
ResponderExcluirÓtimo texto, Ân.....realmente, um por favor e um obrigado, faz toda a diferença !!
Beijos
Parece que hoje em dia a delicadeza, a moral e os bons costumes, começam a passar de moda.
ResponderExcluir"Se faz favor" e "obrigada" são as palavrinhas mágicas com que eu acostumei os meus filhos a falar . Quando pedem qualquer coisa e não dizem a palavrinha mágica já sabem que é como eu não tivesse ouvido!!!!!
Se nós não utilizarmos esses termos os nossos filhos não irão usá-lo, pois as crianças imitam tudo o que o adulto faz!!!!
Belíssimo texto. Parabéns.
Bjão
"Por favor" e "Obrigado" são obrigatórios aqui em casa.
ResponderExcluirAs crianças são nosso espelho e acredito ainda em educação.
Vejo muitas crianças tão mal educadas por aí... já até comentamos sobre isso em outro post, não é?
E as crianças de hoje são os adultos de amanhã...
Parece caretice dizer um obrigado ou um por favor????
Onde o mundo vai parar com essa história de caretice?
Sou a favor da gentileza, da educação, dos bons modos, enfim... sou a favor de um comportamento que remete ao respeito e à paz.
Beijoca!
Rê Filhuska
Também acho Nad...
ResponderExcluirDevo ser ou privilegiada ou otimista.
ResponderExcluirPrivilegiada porque tenho encontrado tantas pessoas que pedem desculpa (como um adolescente outro dia no metrô, que esbarrou em mim e pediu desculpas). Otimista, porque quero crer que, se você vê o mundo com olhos bons, verá coisas boas... O mundo não é tão ruim assim, há, sim, muitas pessoas que dão "Bom dia", "Obrigado", "Desculpe", "Com licença"...
Que há as mal educadas, isso há sim.
Mas, a essas, só nos resta dar o bom exemplo.
O que elas farão com ele?
Bom, eu acredito que, no mínimo, terei dado alguma contribuição...
Olá Angela, boa tarde. O texto do querido J.Carino é realmente um alerta aos tempos autais, sobretudo nas grandes metrópoles. Fico feliz que tenha relançado-o aqui, através do seu blog, para que as palavras contidas nele venham ecoar mundo afora. Só gostaria, se possível, fosse feito uma ressalva: este texto foi originalmente escrito para o site www.cronicascariocas.com , do qual Carino é colunista, escrevendo sempre às terças-feiras.
ResponderExcluirUm forte abraço, e Obrigado!
Francci L.
Olá Angela,
ResponderExcluirUm belo texto e muito bem lembrado a arte de agradecer.Acho que tudo vem das raizes, eu por exemplo, fui criada nesse sistema de obrigados, por favor, por gentileza, com licença e assim por diante.Estamos em outra era onde para seus habitantes agradecer é coisa ultrapassada, em desuso e por aí vai.Obrigada pela visita apesar de nada ter dito sobre o meu texto, mas sua presença fez a diferença e aguardo retorno.
Beijo,
Neila
Apareça na minha Home Page muitas novidades.
ResponderExcluirBom fim de semana.
ResponderExcluirApareça na minha pagina.
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